Rebeca Telez inicia o último dia do Compoli, convidando à mesa o mediador Fernando Conceição, a jornalista Liliana Peixinho e a coordenadora do CRA (Centro de Recursos Ambientais) Beth Wagner.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Beth Wagner e Bautista Vidal no 2º dia do Compoli

Daqui a pouco na manhã deste 23/10/07, a diretora geral do Centro de Recursos Ambientais (CRA) do governo da Bahia, Beth Wagner (foto), dá início ao segundo dia de debates da quarta edição do Compoli, ao lado da jornalista especializada Liliana Peixinho. Também participa da mesa o físico J.W. Bautista Vidal, ex-presidente da Capes, que é considerado "o pai" do Proálcool - o programa brasileiro de biocombustível mais respeitado do mundo.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Perguntas da Platéia
Convidada da platéia
Pensando na complexidade desse quadro sobre a questão ambiental, algumas perguntas: existe um jornalismo qualificado no Brasil pra cobrir isso? Qual o papel desse jornalismo na criação de outra consciência? E essa consciência é capaz de produzir outras questões sobre o assunto? E no ponto econômico, o desenvolvimento sustentável é viável ou não passa de um romance?
Torres Freire
O Jornalismo brasileiro é muito pobre. Mas existe jornalismo qualificado sim. Só que não existe muito mercado pra isso.
O Jornalismo não tem que criar novas consciências. No entanto, se as pessoas tiverem interesse, ele é capaz de mudar. Mas o jornalismo, sozinho, não pode fazer muita coisa. Isso é mais um cunho político.
Sim, eu acredito em desenvolvimento sustentável. Mas isso não é só combustível. Falta infra-estrutura, planejamento, e isso degrada enormemente o ambiente.
Fernando Conceição
Paul, o Partido Verde no Brasil não tem nada a ver com o partido francês. Quais as diferenças entre os partidos e o que vem a ser uma pessoa "Verde Engajada"?
Paul
O Partido Verde francês tem uma visão radical, porém não revolucionária. O Partido Verde brasileiro tem mais a ver com essa segunda pergunta: as práticas do cotidiano. Eu sou ecologista político. O primeiro animal que me interessa no mundo é o ser humano. Não me interesso em salvar as baleias. Não é minha praia. No entanto vejo o meu partido como único no mundo que levanta essas questões. Não podemos deixar de usar um aparato, se não houver alternativas. Não vou parar de usar detergente se não houver uma alternativa viável a ele, por exemplo.
Liliana Peixinho na platéia
Nesse cenário de harmonia entre o que o planeta pode sustentar e o que a gente precisa de fato, como vocês vêem mudanças como a China, que num curto espaço de tempo trocou as bicicletas pelos carros. Como vocês vêem esse aumento de consumo e o novo paradigma que a China traz pro mundo?
Torres Freire
No que diz respeito à fome, o problema mundial não é falta de comida. O problema é político. De distribuição, barreiras, etc.
A agricultura familiar, do jeito como é hoje, não tem mercado. Não tem futuro. Às vezes é melhor concentrar terra por meio de cooperativas.
A China é uma ameaça não só por conta do crescimento, mas porque o modo como eles crescem é ruim. Da mesma forma que é impossível reproduzir o modo de vida norte-americano, também não dá para dizer "Chineses, não cresçam porque o planeta não aguenta".
Paul Regnier
Claro que a agricultura familiar não é competitiva. Não tem como. Mas abandoná-la também não é solução. Não é diminuir o preço da Mamona e sim aumentar o preço da Soja, por meio de taxas que abonem a destruição ambiental que ela representa.
Pessoa na Platéia
Como os palestrantes vêem as políticas de prevenção de natalidade?
Paul
São válidas. A dúvida é saber qual povo vai ser diminuído. A AIDS já mata milhares.
Vinícius
Ou se tem um programa voluntário ou um programa autoritário. Quando as pessoas têm informação, saúde e acesso à informação, elas têm capacidade maior de decidir sobre suas próprias vidas.
Comentários da Mesa
Paul comenta que a ecologia política está preocupada com o uso que as novas tecnologias vão ter. Ele não concorda com o modelo de sociedade em que é preciso produzir mais para sustentar o "American way of life". "É importante defender o consumo de combustíveis biológicos, mas principalmente é preciso se pensar na economia drástica de energia."
Paul cita ainda Gandhi, com a expressão "A verdadeira civilização não consiste em multiplicar as necessidades, mas em limitá-las voluntariamente. Esse é o único meio para o cidadão conhecer a verdadeira felicidade".
Vinícius treplica afirmando que não era seu objetivo fazer uma defesa do biocombustível. Claro que há o desperdício nos EUA. É a sociedade do desperdício por excelência. Mas mesmo em consumos menores, é preciso haver combustíveis. "Numa população mundial próxima de 7 bilhões de pessoas a necessidade de combustíveis vai ser grande. E a pesquisa nesse sentido vai ser sempre um avanço. Mas esses avanços também trazem problemas".
Fernando Conceição pergunta a Vinicius qual a contribuição que os meios impressos dão para a destruição das áreas florestadas do país?
Segundo o jornalista da Folha, a primeira contribuição do jornalismo impresso seria se extinguir. "O jornal é uma indústria muito primitiva. A produção de papel, no entanto, é um grande mercado. A tecnologia já nos permite minimizar o uso de papel. Mas a produção de celulose para papel não chega nem perto da devastação de madeira na Amazônia por meio da derrubada ilegal.
Fernando comenta que 30 anos depois da criação do computador, que poderia diminuir o uso de papel, aconteceu o contrário. Nunca se usou tanto papel como na nossa época. "A burocracia da sociedade dificulta a implantação dos meios eletrônicos. Pois é preciso carimbar, em papel, documentos que poderiam ser transferidos de forma digital."
O Coordenador da mesa faz ainda uma pergunta para Paul Regnier: Em quê esses movimentos "da moda", como passar um dia sem usar carro ajudam na proteção ao meio ambiente?
Para Paul, se é possivel fazer um dia sem carro, é porque o transporte público é eficiente. Um dia sem carro em São Paulo seria praticamente um feriado, pois as pessoas não teriam como se locomover. Mas essas medidas são interessantes, na sua visão, pois um dia em que se deixa de consumir algo em escala global é melhor do que um feriado como o Dia das Crianças, em que se incentiva o consumo de brinquedos.
Torres Freire complementa dizendo que a repetição dessas iniciativas pode ajudar a popularizar medidas ambientais e a criar uma consciência ambiental, um efeito benéfico.
Palestra de Vinícius Torres Freire
Vinícius Torres Freire inicia sua palestra, "O custo econômico-social do biocombustível: uma abordagem jornalística", afirmando que o cenário do biodiesel apontado é basicamente inútil. Posto dessa forma, ele não mostraria quais os desenvolvimentos possíveis. O que está sendo discutido basicamente sobre biocombustiveis é como podemos ter um uso mais eficiente, menos poluidor, e, em última análise, quais países vão ter preponderância nesse mercado. Para discutir biocombustíveis é preciso ver outros fatores, como o interesse de grandes instituições a respeito do assunto. Não ver isso é fazer uma abordagem muito frágil.
Já sobre a dicotomia comida x biocombustíveis, Vinícius acredita que essa é uma visão ruim, pois as instituições não fazem pesquisas e nem permitiram algo nesse sentido. Para exemplificar, Vinícius mostra que para abastecer 100% do mercado americano, o Brasil precisaria de toda a sua área cultivável, mas isso nunca vai acontecer porque, em primeiro lugar, uma hora vai ser mais vantajoso plantar comida do que cana; e em segundo, países mais ricos tem barreiras que impedem países de terceiro mundo, como o Brasil, de se tornarem competitivos. Vinicius comenta ainda que a produção agrícola americana e européia é subsidiada oficialmente, o que dificulta a entrada do Brasil nesses mercados. Há também as barreiras cientificas, como a falta de incentivos à pesquisa.
A hipótese de que a mera extensão da produção de cana diminui o plantio de comida é bastante vulgar, pois é possível aumentar não só a área cultivável, como melhorar as produções. As barreiras para a expansão do álcool são, portanto, políticas.
Vinicius aponta que o álcool celulósico é a Meca das pesquisas do aproveitamento da cana como biodiesel hoje em dia. Torres Freire usa esses exemplos pra mostrar que os estudos nessa área ainda tem muito o que crescer. Especialmente em pesquisa, que não avança por falta de interesse no assunto. Como exemplo, as pesquisas de malária, que nunca foram à frente por falta de interesse.
"O Cenário catástrofe não é certo nem errado. É inútil."
Em quais condições é possível que se mantenha a agricultura familiar? No Paraná, essa agricultura está estritamente ligada a grandes empresas, como a Sadia. Entretanto é muito difícil manter uma relação dessas, pois, em muitas vezes, a produção familiar não serve às grandes empresas.
Não existe pesquisa eficiente para a produção de mamona e dendê. Em escala industrial, essa produção se torna inviável, entre outros fatores, porque para pegar mamona de vários produtores, o gasto logistico é muito grande (comercial e ambientalmente). Para produzir biodiesel, é preciso gastar diesel.
A cana vai ser apenas uma das alternativas energéticas do futuro. Primeiro, porque o mundo inteiro está pensando em novas fontes; segundo, nenhum pais com importância econômica vai querer sair da dependência do petróleo pra cair em outra. Energia não é só pra colocar no tanque do carro. É preciso se pensar em energia térmica, solar, aeólica, etc.
Proibir a queimada de cana traz prejuízos: elimina a mão-de-obra assalariada e mecaniza totalmente a produção, pois é inviável cortar cana manualmente, sem queima.
Quais as soluções? Investir em tecnologia, para aumentar a eficiência da produção, e romper as barreiras comerciais dos países ricos.
Respostas de Paul Regnier às dúvidas da mesa
Em resposta Paul cita o Greenpeace, que faz organizações pontuais para alertar sobre situações específicas pelo mundo. Existem sim formas de encarar o problema. "A ameaça é pior que a ação".
Outro exemplo dado por Paul é a a ação de grupos militantes pelo lançamento das reparações dia 19 de Dezembro de 1993, que fez com que, no dia seguinte, a pauta dos principais jornais fosse o dia da consciência negra.
Sobre as ações do MST, Paul comenta que sempre foi a favor da luta com ações radicais. Contudo existe uma contradição: se os fins não justificam os meios, eu não posso fazer atos ilegais. "No entanto as leis estão erradas"! Não podemos aceitar leis como o apartheid, na África era necessária a guerra civil para acabar com isso. Talvez no Brasil seja necessária outra forma de guerra civil para derrubar essas multinacionais que conduzem de uma forma que não podemos concordar.
Regnier reforça que é preciso ter posição de cidadão engajado. Sem medo de retaliações.
Por fim, sobre as lutas dos movimentos ecológicos, ele comenta: "Pra mim, eles tem ganhado espaço. Não tem a história que grandes conceitos como capitalismo e socialismo tem. Ela é uma utopia recente."
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